Por: Lino de Freitas Fraga
Esse senhor jornalista/ escritor do livro
E abaixo vou transcrever a entrevista da história do meu pai.
"Desta
vez fomos até à Freguesia da Ribeirinha da Ribeira Grande, conversar
com o camarada Manuel Pedro da Silva Medeiros, (barbeiro), que nasceu na
R. Grande.
Depois
de tirar a 4ª. classe, trabalhou na lavoura, até ser chamado para o
serviço militar obrigatório, sendo incorporado no B.I.I Nº.17 em Angra
do Heroísmo em 17 de Junho de 1972, onde tirou a recruta e
especialidade.
Algum tempo depois, foi mobilizado para Angola, tirando o IAO, em Setúbal. De
referir que o Manuel revela algum esquecimento sobre as datas,
nomeadamente de partida, chegada e acontecimentos importantes, pelo que
não é possível concretizar datas.
Chegado
a Angola, já em 1973 e depois de quinze dias no Grafanil, foi destacado
para o Norte de Angola, zona de Lufico, onde permaneceu até depois do
25-04-74.
Durante
a comissão foram várias as situações complicadas, com ataques e
emboscadas principalmente quando iam buscar água aos rios, com o terreno
e o próprio rio minados.
No
entanto, o momento que marcou da vida do Manuel, para sempre, aconteceu
nos primeiros dias de Agosto de 73: “Íamos numa patrulha a caminho do
Lepal quando uma mina, anti-carro, destruiu por completo a nossa
viatura, um UNIMOG. Eu fui projectado com violência contra uma árvore e
fiquei todo partido com várias fracturas no peito, nas costas, nos
ombros e com muitos estilhaços, no corpo”.
Nesta
explosão, morreu um soldado e ficaram mais quatro feridos além do
Manuel, um dos quais o Alferes comandante do Pelotão. Manuel foi
evacuado, de avião, para o Hospital Militar de Luanda, estando aí
internado mais de dois meses
Mesmo
com muitas limitações físicas, foi mandado de regresso para o
aquartelamento, onde permaneceu até depois do 25 de Abril, altura em que
foram obrigados a entregar o quartel e regressar a Luanda. Aqui Manuel
não tem dúvidas em afirmar: “Foi em Luanda, no Verão de 1974, que
assisti aos piores momentos de violência, com actos de vandalismo e de
atrocidades, com pessoas decapitadas e uma autêntica chacina feita
pelos, ditos, movimentos de libertação”.
Regressou
em Dezembro de 1974, continuando com muitos problema físicos. Ao fim de
três anos e como continuava muito doente, requereu uma junta médica.
Foi à junta a Lisboa, onde permaneceu três meses em tratamento,
melhorando bastante, sendo-lhe atribuída uma incapacidade e
consequentemente uma pensão de invalidez pelos danos sofridos em
campanha, mas continuou uma longa recuperação, mesmo em casa.
No
entanto, Manuel casou e deste casamento vieram cinco filhos, começou
também a trabalhar numa fábrica de lacticínios e passou a fazer uma vida
“normal”.
Porem,
com a idade, os problemas físicos voltaram a agravar-se, com dores nos
ossos em toda a zona atingida no acidente, o frio e a humidade são os
principais inimigos.
(Meu pai e eu em 1993)
Quanto
aos momentos mais difíceis, Manuel destaca: “Para além do acidente em
que fui ferido, foram as despedidas da família e da minha noiva, foi
muito complicado e já mais esquecerei, mas a chegada também não foi
fácil dado os problemas físicos e, principalmente, o complexo que tinha
devido às condições com que regressava devido ao acidente. Foi muito
duro, mas consegui sobreviver”.
Manuel
regressou, também, com problemas psicológicos, “… eu não conseguia
dormir e quando dormia um pouco acordava aos gritos, qualquer roído mais
forte me perturbava, estava sempre numa agitação…”, e não tem dúvidas
que, foi graças ao apoio da família, em especial da esposa, que
conseguiu recuperar, diz mesmo com alguma emoção. “Ela, (esposa), é que
têm sido a grande vítima da guerra”.
Não
posso deixar de referir os magníficos trabalhos, de bordados, feitos
pela esposa do Manuel. Embora não perceba nada do assunto, são dignos de
serem vistos.
Obrigado ao Manuel e à esposa, pela forma simpática, como nos receberam em sua casa. Um abraço."



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